Destino: casa

12/11/2010

O transporte é uma maravilha, a polícia, na falta do que fazer, se ocupa de bater na casa das pessoas e exigir que o volume da música seja baixado, há pouca miséria na rua, ninguém avança sinal, todo mundo atravessa na faixa, os jardins são cuidados… Sentirei falta do metrô supereficiente, de caminhar sossegado 3 horas da manhã na rua, de passear pelo Retiro, de pisar na faixa e o carro parar, das praças floridas, dos museus, dos castelos. De tudo isso. Mas, em compensação, terei de volta os abraços, as praias, os estádios (com torcedores de fato), o acarajé de fim de tarde, a feijoada, os churrascos, a Skol gelada, o samba, o Carnaval, o cinema brasileiro, a Baía de Todos os Santos, a morena sambar, seu corpo todo balançar, o Brasil de sol, de céu, de mar. Até dentro de mais uns minutos!

O jornalismo impresso está brocha

08/11/2010

Durante vários meses, nas palestras do Programa Balboa, vários diretores de jornais espanhóis tremiam diante de nós. O pavor deles? O futuro do jornalismo impresso. Via de regra, vislumbram um cenário terrível: a morte inevitável do impresso assim que o último velhinho de praça apagar a luz, e o jornalismo online como messias. Mas um messias sabe-se lá de quê, porque eles não sabem o que fazer com a internet. Nem jornalisticamente nem financeiramente.

O único que eles sabem – e provavam às vezes com números – é que hoje não se vende jornal na Espanha se o maldito não anunciar uma promoção do tipo “junte 15 selos, mais X euros e leve Y”, sendo X valores normalmente entre 5 e 40 e Y sendo qualquer coisa: camisa da seleção, boné, chaveiro, xícaras, maquiagem, pentes, panelas, jogo de cozinha, a mãe até.

Com as revistas é a mesma coisa. Muitas vezes, também vale qualquer coisa, como no caso da Actualidad Economica, que vem com o livro “Um Estudo em Escarlate”, ou uma revista de carros que vem com… cachecóis. Porém, na maioria das vezes, o brinde é mais relacionado ao público-alvo. É o caso da Muy Interesante que vem com um plug de vários USB, ou de uma revista de fotografia que vem com um guia de viagem ou a revista feminina Woman, que Iracema só queria comprar porque vinha com um pente de madeira (o que prova que a estratégia de marketing dá certo).

Banca-supermercado

Mas eu, ao me deparar com a banca, pensei logo: “Meu Deus! E a Playboy? Vem com quê? Vale-night no mínimo, né?” Assaltado pelo pensamento, disparei com os olhos para a parte de revistas eróticas. Mas havia uma pedra no meio do caminho.

Isso sim é mirar o público-alvo

Meu consolo (sem trocadilhos): Iracema só quis mesmo a Woman.

Domingo no parque

02/11/2010

Últimos dias em Madri, uma espécie de sonho chegando ao fim, esse clima de despedida no ar… nesse cenário, nada mais natural do que correr atrás de programas típicos. Nessa busca, me deparei pensando em ir novamente ao Bernabéu, aoVicente Calderón e ao Teresa Rivero (estádio do Rayo Vallecano, time da Série B, uma espécie de América para os madrilenhos). E eis que descubro que no último fim de semana que estarei aqui vai rolar Real Madrid x Atlético de Madri. Quer melhor? O maior clássico da cidade como despedida? Entro no site para comprar os ingressos e…

… e descubro que vou passar meu último domingo no parque.

Procura-se Mayara Petruso

01/11/2010

De preferência, viva. Para ser julgada e condenada. A trabalhar no cadastramento do Bolsa Família.

* * *

Mayara Petruso é agora famosa. Como (e bota “como” nisso) Hitler. Mas, verdade seja dita, ficou famosa sozinha por um crime que muitos cometeram – e cometem. Desde a confirmação da eleição de Dilma e da divulgação da distribuição dos votos de acordo com as regiões, a discriminação contra nordestinos e nortistas aflorou em muitos tuiteiros. Mayara Petruso talvez tenha sido apenas a mais enfática. Assim, essa discriminação elitista criminosa, perigosa, retrógrada, imbecil, podre, fétida, nefasta, ignorante – discriminação, enfim -, que está por todo canto, ganhou nome e sobrenome. E agora a Justiça brasileira tem uma ótima chance de dar exemplo.

* * *

Em tempo – e muito menos importante do que toda essa palhaçada. Colegas do blog Futepoca provam que o Brasil inteiro elegeu Dilma.

VIP

01/11/2010

Finalmente convidado para esta festa pobre, o Nordeste compareceu. E não é mais para estacionar os carros.

Saúde de primeira

30/10/2010

O colega Ancelmo Góis diria que deve ser triste viver num país assim. Notícia do jornal “Qué!” do dia 26 de outubro.

“R. F., 31 anos, permanece internado desde 17 de outubro no Hospital Gregório Marañon. Dois dias antes ele foi à unidade pela primeira vez, mas depois de alguns exames foi liberado para retornar para casa. No domingo, ele começou a se sentir pior, a febre subiu, sentia dores musculares, taquicardias e falta de ar, então voltou ao hospital. Ficou em observação por um dia e na segunda-feira foi levado para um quarto. Nesse momento, foi comunicado de que estava contaminado com legionela”.

A legionela é uma bactéria que em uma semana contaminou mais de 30 pessoas e matou duas só em Madri. Aliás, só no mesmo bairro – o mesmo do tal Hospital Gregório Marañon. Pessoas correndo risco de vida sendo liberadas depois de exames de rotina em meio a um surto na cidade. Coisa de primeiro mundo.

Em tempo: o surto da tal legionela é justamente no bairro onde moro. Se eu me sentir mal, é para o Gregório Marañon que tenho que ir. Mas, família e amigos, fiquem tranquilos. Estou na Europa, o atendimento é ótimo.

Vão ver se estou na esquina (Ou: eu conheço gente que ganhou na loteria)

26/10/2010

Tudo muito bom, tudo muito lindo. Viajar, conhecer pessoas novas, diferentes culturas, lindas paisagens, boa comida, blá, blá e blá. No entanto, uma das coisas que você aprende é que, por mais feliz que você esteja, existe um canto reservado no seu cérebro (e no seu sangue) para irritações. Muito bem. Esse espaço pode ser ligeiramente ocupado, por exemplo, quando você chega em Veneza, a Praça São Marco está em reforma e a famosa Ponte dos Suspiros está coberta por painéis publicitários. Ou, ainda, pode ser amplamente ocupado quando você chega em Viena, louco para ver um concerto na ópera mais famosa do mundo, e descobre que há um recesso estival e os espetáculos só serão retomados na semana seguinte. Agora, realmente, a irritação transborda – com louvor – esse espaço quando você, já pobre e contando as moedas para tomar o café, joga na loteria acumulada, não acerta um número sequer e, ao chegar em casa, descobre que o namoradinho da mulher a quem você paga pelo maldito miniquarto do desgraçado do microapartamento acertou cinco dos %&#! seis números e levou €1.500.000 (Hum milhão e quinhentos mil Euros). E deu €100.000 (Cem mil Euros) pra sua companheirinha de porta. Aliás, 100 não, 105. Cento e cinco. Mil. Euros. E ela ainda te mostra o comprovante do depósito bancário assim, entre um gole de café e outro, enquanto assiste à porcaria da novela.

E nem me venham com papinho de altruísmo, empatia ou o diabo que o parta. Ou melhor: não falem mais comigo hoje.

Tudo muito bom, tudo muito lindo. Viajar, conhecer pessoas novas, diferentes culturas, lindas paisagens, boa comida, blá, blá e blá. No entanto, uma das coisas que você aprende é que, por mais feliz que você esteja, existe um canto reservado no seu cérebro (e no seu sangue) para irritações. Muito bem. Esse espaço pode ser ligeiramente ocupado, por exemplo, quando você chega em Veneza, e a Praça São Marco está em reforma, e a famosa Ponte dos Suspiros está coberta por painéis publicitários. Ou, ainda, pode ser amplamente ocupado quando você chega em Viena, louco para ver um concerto na ópera mais famosa do mundo, e descobre que há um recesso estival e os espetáculos só serão retomados na semana seguinte. Agora, realmente, a irritação transborda – com louvor – esse espaço quando você, já pobre e contando as moedas para tomar o café, joga na loteria acumulada, não acerta um número e, ao chegar em casa, descobre que o namoradinho da mulher a quem você paga pelo maldito miniquarto do desgraçado do microapartamento acertou cinco dos seis números e levou 1.500.000 Euros (Hum milhão e quinhentos mil Euros). E deu 100.000 Euros (Cem mil Euros) pra sua companheirinha de porta. Aliás, 100 não, 105. Cento e cinco. Mil. Euros. E ela te mostra o comprovante bancário assim, entre um gole de café e outro, enquanto assiste à porcaria da novela.
Ah não! E não me venham com papinho de altruismo, empatia ou o diabo. Ou melhor: não falem mais comigo hoje.

5,2 metros de realidade

19/10/2010

Davi. Ao vê-lo, fiquei imaginando como será, para ele, a solidão da noite. O que será que passa pela sua cabeça? Talvez aproveite para correr pelos corredores para, de manhã, voltar à sua posição. É… ele deve fazer isso.

Da poligamia

18/10/2010

Amo o Rio porque ali nasci; Montevidéu me explica; Salvador soube me conquistar; Roma, simplesmente, é.

 

Paráfrase da solidão

17/10/2010

Solidão é tudo aquilo que você pensa enquanto não está ocupado conversando com os outros.